Eu não sabia que a vida pudesse me ensinar tanto,
que minhas lágrimas trouxessem para perto de mim
a sombra fria da amarga solidão, a ausência sofrida
do meu inesquecível cão.

Eu não sabia como dói na alma a falta de quem se ama tanto.
Senhor, neste momento de contrição, refletindo sobre minha vida,
posso ver o tempo perdido quando esqueci de amar,
quando imaginava que o amor não tinha importância para mim.

Nunca me ensinaram a amar os animais.
Meus pais eram religiosos mas nunca me ensinaram a rezar pelos animais.
Eles também não sabiam o valor do amor em sua plenitude.

Eu nunca soube valorizar a amizade do meu cão,
que se dedicava a mim integralmente quando eu estava em casa.
Não saía de perto de mim.
E eu, estúpido, nunca percebi o que dizia aquele olhar.

Fazia questão de se mostrar para mim,
olhando-me com ternura, o jeito canino de conquistar corações.
Mas, minha alma empedernida, não tinha tempo nem sensibilidade
para entender o que dizia este olhar.

Agora entendo a razão de ao ouvir minha música favorita
ele se aproximava e se encostava em mim, olhando-me como se dissesse
"essa também é a minha música favorita".

O cão amigo quer ver seu dono feliz.
Gosta de tudo que ele gosta e tenta fazer graça para vê-lo sorrir.
Às vezes, parecia que sua alma se aproximava de mim.
Mas, insensivelmente, eu não entendia neste lindo gesto de amizade,
que ele queria me dizer, o quanto me amava.

Eu não o olhava como merecia ser olhado.
Lembro-me que, quando menino, ensinaram-me a rezar
mas nunca me ensinaram a pedir a Deus pelos animais.
Acho que isso congelou o meu coração.

Eu peço perdão por minha insensibilidade,
pelo fato de não valorizar as pequenas coisas desta vida,
na simplicidade deste meigo olhar, o amor
que dele transbordava a felicidade para me presentear.

Este meu cão valorizou a minha vida
e eu não soube valorizar a sua existência.
Como fui tolo e não valorizei cada instante,
cada momento e encontro desta vida.

Hoje, choro de saudades, de arrependimento,
pelo tempo que perdi em não admirá-lo desde que chegou
à minha casa, ainda muito pequenino.

O seu latido de menino cão,
o chinelo que ele gostava de brincar, morder, fazer arte;
a vida que sorria para mim e eu não soube nesta vida amar,
e com ele brincar.

Ele viveu em minha casa por 18 anos
e morreu tranquilamente, sem sofrer.
Ao acordar de manhã, estava deitado ao lado da minha cama,
com os olhos semi-abertos.

Eu não sabia que ele tinha viajado
para perto de Deus.

Senhor,
em seus ensinamentos valorizou o perdão, a misericórdia:
bem-aventurados os misericordiosos, porque receberão a misericórdia,
e eu imploro a indulgência por não ter sabido amar o meu cão.

Eu não o tenho mais perto de mim.
Ele viajou para bem longe, onde residem as mais belas e fulgurantes estrelas,
residindo no paraíso, na estrela mais bela que já pude contemplar.

Todas as noites eu abro a janela e ouvindo a mesma canção,
a canção que ele mais gostava e ficava com seu meigo olhar.



Longe e tão perto, está este eterno amigo,
ligados pela mesma emoção, o carinho, a ternura,
a despedida que foi triste e dolorosa, exatamente quando aprendi
a vida valorizar.

Meu cão amigo e querido,
saiba que o aparente desprezo não passava da minha frustração,
por não ter a grandeza de saber valorizar o sentimento,
por não saber o quanto é importante amar.


Essa canção é sua.
Estamos juntos neste instante, eu sorrio de felicidade,
afinal, vejo com o coração enternecido
como é lindo este seu olhar.

Para sempre, seu amigo,
Gilberto Pinheiro.

**Autoria de Gilberto Pinheiro

 

 

 

 

 

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